terça-feira, 23 de abril de 2013

O desespero corria do coração à boca e saia misturado com as lágrimas secas pois já há muito tempo que se tinham esgotado de danadas saltarem e não corriam no esgar dorido que desfigurava o rosto.....

O vento era calmo e macio como mãos que houvera! Murmurava baixinho numa ou noutra rajada contrapondo-se à violência das preces que corriam, essas sim desatinadas na angustia que mirrava os olhos, tornava o coração miudinho e esbranquiçava as mãos agitadas ora erguidas aos céus suplicantes, ora caindo desalentadas ao longo do corpo que definhava,  como planta onde  a seiva fresca e pujante dera lugar ao frio dos tempos que aos poucos amareleciam as folhas e os ramos ....

Outrora  fora a voz meiga e suave que empolgara o coração, que dera asas aos sonhos e me colhera na adolescência onde o horizonte parece sempre infinito e belo.....

Caído de rastos o rosto exangue recolhe os últimos lamentos do desespero guardando-os na alma. Veio a submissão  ao incontornável destino, a aceitação da realidade numa ultima blasfémia a um Deus implacável....

Tanto tempo passado e a dor de outrora é a dor de hoje. O desespero é o sangue que jorra da veia rota, tirando a vida em cada golfada arfante de ar....

Quantos horizontes trespassei sempre com a ânsia de ser o ultimo, aquele que me traria por fim a paz que tanto ensejo...o encontro de novo das almas separadas que se unem na eternidade....mas quê? Os meus passos cada vez mais trôpegos lá se vão arrastando no tempo, marcando em cada pôr do sol um novo renascimento para a vida que já não tenho......


Jorge d'alte