quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DULCINEIA


......A onda veio de mansinho morder-me os dedos dos pés trazendo a frescura salgada desejada. O sol tinha-se empinado lançando raios dúbios de violeta e radioactividade. Era o equinócio de Verão que tinha chegado, furando a névoa matinal e escorraçando-a bem para longe para gáudio das formas abstractas e disformes esparrachadas na areia escaldante. As sereias ainda não tinham aparecido, pois gostam mais das noites de luar, onde podem gemer encantando com as suas vozes roucas o macho vibrante.
Os meus olhos claros ofuscados pela luminosidade fechavam-se de modorra e tédio. Mais uma onda se soltou mais agressiva fazendo-me soltar uma imprecaução desprevenida perante o salpico mais gelado.
A sonora gargalhadinha feriu-me os ouvidos fazendo-me voltar a cara que atónita sorriu parvamente. A vozinha tinha corpo não de sereia mas de musa e a pele brilhava-lhe em minúsculas gotinhas de água salgada. Por fim chegara a miragem ansiada e os lábios correram langorosamente esborrachando-se em sorvos quentes e húmidos fazendo subir drasticamente a temperatura.
Era ela a minha doce e amada Dulcineia. As mãos tocaram-se palma com palma e os dedos brincaram para se entrelaçarem. Os rostos olhavam a alma, sentindo essa química tão necessária aqueles que se amam.
Os corpos jaziam unidos na areia. Tinham escorregado e deslizado como implosão e juntos voaram e a brisa enfunou com as palavras fortes do amor, as corrosivas da paixão, as promessas para o futuro que queremos em cada horizonte vencido.
Foi um dia como tantos mas especial como poucos e eu nunca esquecerei a alegria que vivia e iluminava esses olhos dourados de mel.
A saudade persiste em me trazer retalhos da minha vida, musicas já passadas mas melodias de sempre, por isso eu danço esta dança e esqueço-me na onda que me leva arrastado para o teu terno mar.

jorge d'Alte