sexta-feira, 11 de outubro de 2013







A minha mente parecia uma galinha a espolinhar-se na terra húmida tentando bicar pedaços de saudade, bocados de um "eu" que deixara algures nas planícies férteis onde tu existias.....

............................Passos mordiam o chão de terra arenosa, levantando pequenos grãos de poeira como nuvens no meio da modorra. O olhar acerado não prenunciava nada de bom e os lábios cerrados continham lá dentro tanto para gritar e a fúria vencia obstáculos atrás de obstáculos, levando o corpo frágil e franzino de Maria.






Tudo começara algumas horas atrás no meio da nuvem que não era, feita de fumo cinzento e oloroso, como a alma minha que se entristecia perante a indiferença...
O corpo movia-se em bocados discernidos por entre a fumaça e corpos anónimos de nomes que desconhecia, mas os meus olhos perdidos sonhavam esse corpo de pele dourada e cabelos de cobre, caindo e baloiçando sobre ombros que eu beijava em sonho.
Tudo fora lindo como história escrita, escondida nas capas da minha mente, mas transbordara pelos meus lábios numa frase interrogativa " a menina dança com o eu, que eu danço com o tu?"




O rosto surpreso abriu-se como flor de madrugadas e o sorriso cresceu fazendo agigantar-se esse nó na garganta, esse comichar na barriga, esse bambolear de pernas moles, mas as suas mãos como suaves gavinhas agarraram-se ao meu corpo aprisionando-o no ritmo, como seara dourada dançando na brisa soprada.
Dois olhos negros que amei, tão profundos como infernos de perdição, pegaram nos meus azuis como céus abertos de eterno sol e dançaram em palavras murmuradas aos ouvidos e seladas no beijo súbito que aconteceu.....
E pronto!
Foi como bofetada!
A fumaça desapareceu de repente quando a porta bateu nas nossas costas e os passos cresceram, mordendo o chão de terra arenosa, levantando pequenos grãos de poeira como nuvens no meio da modorra. O olhar acerado não prenunciava nada de bom e os lábios cerrados continham lá dentro tanto para gritar e a fúria vencia obstáculos atrás de obstáculos levando o corpo frágil e franzino de Maria.
O meu coração batia atrasado, tentando conquistar os segundos perdidos num alcance impotente, enquanto a mente chorava por dento e o lamento questionava " que se passara ali".
Por fim os passos abrandaram, ficaram lentos e pararam e a fúria secou e como visão fantasmagórica o corpo se virou para mim sacudindo para fora " porque fizestes aquilo?"
A minha cara deve ter-se derretido toda no esgar de incompreensão primeiro e de compreensão depois
" o beijo!"
Nunca pensara que um beijo provocasse vendavais tamanhos como relâmpagos na tormenta que vislumbrava faiscando nesses olhos negros que tanto amara.
"Sabes nunca fui beijada dessa maneira e senti-me sugada para um abismo e de repente fui lava num vulcão desconhecido que me encheu de um sentimento tão forte que explodiu cá dentro da minha cabeça. Assustei-me e fugi, mas agora quero isso tudo só para mim, até á eternidade".
E a eternidade cresceu em rostos enrugados de peles manchadas, mas todos os dias o beijo acontece mesmo quando não estás, e cresce de novo como nova alvorada.....


jorge  d'alte