quarta-feira, 2 de outubro de 2013

RECORDAÇÃO










As recordações vieram, tropeçaram num ramo de neurónio e ficaram ali levedando azedas e brilhantes.......





......Vieram do outro lado como ratos petiscando queijo duro em pão de côdea.. Sentaram-se em volta de um fogo que estarlejava faúlhas aguçadas que ardiam em ápices e chamas que se atiçavam rubras de prenhe fúria, em caixotes de madeira escurecida de cheiros nauseabundos, misto de gorduras e outros tantos e as vozes roucas e roufenhas , esganiçadas e ansiosas trespassaram para ouvidos que escutavam novas de outras partes deste mundo que já fora aquilo, a que chamavam paraíso.
Disseram que o céu era preto e as estrelas brilhantes outrora douradas não passavam de meros pontos azulados esbatidos nas sombras negras como morte sem luz. A lua vogava nessa imensidão sem ondas nem brisas e a sua cor leitosa de manto luarento, era agora mancha prateada como salva oca cheia de nada.




.....Vieram do outro lado brisas estranhas que ora murmuravam em surdina em ouvidos moucos, ora gritavam a sua raiva por um sol enegrecido sem madrugada, por mares e montes sem por- de- sol e o ar como aço gelado cortava as falas com vapores falados como falsos fumos onde se perdera o fogo.
.....Vieram do outro lado passinhos sem som, que barulhavam na terra esboroada de parca água,.Chegaram-se ás vozes algo agitadas com olhos sem brilho nem sorrisos gaiatos.Deixaram-se ficar por ali mudos e quedos como sombras de pedrenia que nasciam plantadas por ali ao Deus dará.
.....O sufoco estrangulou o ar que arquejou num soluço parco de som, mais um gemido de ratinho perdido na cor do medo sentido.....que mundo era este onde fora parar?
.....O ar rarefeito esgaçava o peito com  a dor do respirar e o abismo estava ali na ponta dos pés, indefinível e cativante, atraente e suplicante. Afinal seria como um voo de pedra, rápido e estrondoso com batidas de permeio, talvez em arestas aguçadas como esquinas dobradas de ruas perdidas, que um dia trilhara e em cada uma gritara dores consentidas e sentidas, de erros  cometidos como criança que dá os primeiros passos, se esfola e chora. mas se torna  a levantar já a sorrir.
.....Vieram em pequenos fogachos como tochas tremelicando, esticando nervos e transmitindo ordens autoritárias que deviam ser cumpridas.....
.....Vieram quando os olhos se abriram por fim de palpebras quebradas e as recordações se foram e a realidade se focou . O pesadelo estava ali num lado que não fora o meu, ainda semi quente e semi frio, com cheiros e odores de perfumes tontos que se cruzavam em mistos de suores e perfumes variados. Fora um dia um lado quente que dera vida e cor; fora sol nascente de risonhas madrugadas, poente que trouxera as noites de encanto onde vultos se embrulhavam como marionetas de sombras, fora lua alva mergulhada em lençóis de linho, fora luxuria quente e sedenta, fora fogo que matara sedes que construíra paraísos  onde voara livremente de sorriso empunhado.....




Jorge d'alte

(Fotos tiradas do google)