domingo, 21 de novembro de 2010

FILHOS!


Estou só sentado no chão do meu quarto. As sombras dançam à minha volta sua dança transformativa naquilo que a ilusão dos olhos quer que vejamos.
Lanço meus olhos aos céus procurando as estrelas sempre a apagarem-se a cada segundo meu, e a tristeza invade-me profundamente, transforma o meu corpo, dilacera o meu rosto e a dor aparece como chama ardendo bem cá dentro, devorando o meu amor por esses tantos que aos poucos se apagaram.
Meus lábios murmuram roucos e perdidos, na raiva seca que faz arder os meus olhos, perguntando simplesmente:
"Porquê meu Deus?"
Tanta gente a sofrer, onde há poucos segundos era alegria, tanta gente apertando a vida nos seus dedos brancos, cada vez mais gélidos, na vã tentativa que ela não se vá.
As recordações já não chegam para matar saudades, pois correm como imagens sem vida e sem som, como filme mudo onde interpretamos tudo pelo gesto e movimento.
Já não sinto o perfume desses tempos, desses corpos, o carinho desses rostos, o amor danado que era fulgurante vida, já não consigo escutar essas vozes queridas, essas promessas prometidas,o vosso cantar.
Porquê meu Deus?
Porque tem a vida de ser assim, porque nos impuseste esse jogo de roleta?
Não tenho medo dessa morte, não tenho medo dessa partida, apenas não quero sobreviver aos outros, ficar perdido no tempo que já não é meu, não ter esse abraço quente que me faz sorrir.
A luz acende-se na voz querida que me apela.
Pai!
Não limpo os meus olhos, não componho o meu rosto, não te imploro meu Deus, não quero nada de ti, apenas este som me fez sorrir...
O corpo alquebrado, sobre o peso da tristeza, ergue-se a custo deste chão, a vida continua para lá da escuridão e o meu amor é resposta:
Já vou minha filha!
E lá vou no meu sorriso... no meio da sua alegria...


Jorge d'alte