quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O OLHAR !



O olhar estava deitado nas ferventes areias douradas da praia. Embora dolente e letárgico estava atento e predador, fazendo calmamente a sua triagem.
À sua volta rostos misturados com corpos, soltavam gargalhadas, risos, palavras… a bola saltava de rosto para rosto quer nas pontas dos pés, quer na ponta do dedos ou numa qualquer raquete...

O olhar fazia parte de um rosto e tinha olhos azuis…

A água eivada de espuma alongava-se ameaçadora enrolando gãos e grãos de areia nas suas intermináveis voltas onduladas e os cinco olhares moviam-se por ali vogando e espreitando por de cima da ondulação. A bola também lá estava vogando na crista da onda até a mão a agarrar. Estivera antes movimentada no areal, nos pés de quatro olhares, voando airosa e rodopiante de pé para pé entre risos, gritos e impropérios.

O olhar de ar soturno, mastigava na mente uma melodia nova que tecia, acompanhada pelos risos de brincadeira dos outros quatro olhares que permanentemente se cruzavam reconhecidos numa amizade que era deles.
O olhar era solitário mergulhado nas trevas de uma tristeza interior que ensombrava o rosto dele. Não procurava a vida, antes fugia dela. Não tinha o futuro brilhando na menina dos olhos, nem tudo aquilo a que chamam sonhos que já eram. Apenas percorria talvez os últimos metros de uma vida. A sua alegria que gritara muitas vezes no seu olhar ficara perdida algures numa esquina ou viela e numa encruzilhada por aí nascera a fera chamada tristeza, saudade, mágoa ou filha da puta. Era feita de dor, aquela que dói por dentro e nos perde, aquela que renasce a cada lembrança, a cada ida ao passado.

O olhar uma vez mais mergulhou na água tépida passando por de baixo da onda gigante e escorregadia, trazendo à tona um novo arfar, um sorriso triste e uma nova nota para a melodia…

A nota saiu fortemente dissonante.

Perante ele um dos quatro olhares estava fixo no dele, num meio sorriso, numa meia promessa… 
OooH! 
Murmurou o olhar preso nessa teia imensa e sem fios. 

Era um rosto lindo que ali estava perante ele, cheio de mistérios, ternura e de sorrisos. Era talvez a nota que o olhar procurava para terminar a melodia ensaiada.

O olhar fazia parte de um rosto e tinha olhos verdes….



Jorge d’alte

(fotos retiradas da net)