segunda-feira, 9 de setembro de 2013











O vento lançou no ar a sua melodiosa ameaça que repuxou para trás os meus cabelos já revoltos e cacheados, roubando-me ao mesmo tempo o sorriso que esboçava no rosto bronzeado por mil e um raios de sol....




No cimo da falésia quebrada a meus pés, eu abri os braços como se quisesse voar naquele vento que parecia odiar-me a cada rajada uivada....

Seria um gesto como um Deus omnipotente?
Seria apenas um sinal de impotência contra desígnios mais fortes?
Seria....
Abarquei o ocaso neste gesto, tentando parar o tempo que nunca pára, que voa do segundo ao século, que nos leva do berço à morte, que nos leva do primeiro passo ao ultimo, não nos dando o tempo desejado nem a sabedoria de viver uma vida que rasgamos a cada momento com erros atrás de erros, com promessas sem prazo de validade, com ilusões de amores falseados....
Foi a palavra que queria gritar-te que me levou a este apogeu encimado, Foram tantos os sentimentos fluidos que se engasgaram numa garganta que não  teve o pejo de falar.
Os olhos, esses cantavam esse amor que ia na alma, que corria nas veias sedentas, mas que se entrechocava em tempo que já passara. Não foi uma nem duas , as vezes que te quis soprar nos ouvidos os murmúrios doces do meu coração, que quis pegar nessas mãos douradas  de dedos esguios, que quis a luxuria dos teus lábios rosados, desse corpo maleável e delgado, coração que sonhou sonhos dessa pele bronzeada como sedas do oriente, que se quis deitar nesse ventre oferecido, nesses seios tumescentes mas desleitados....

Tal como o vento que soprou, o momento passou e  não voltou  mais e eu sôfrego, rumo
cada dia a esse inferno que um dia foi paraíso para mim, ainda que apenas por uns segundos que não vivi.


jorge d'alte