segunda-feira, 4 de novembro de 2013






Correu, correu até sufocar e cair exausto no chão seco e duro onde nada nascia.
Nem soubera porque fugira  e muito menos para ali onde não havia lugares onde se abrigar onde se esconder.
A sede gretara seus lábios finos e dormentes e a fome emagrecera até aos ossos, pois era só isso que tinha de seu.
Ao longe podia ver espessas colunas de pós avermelhados que corriam em várias direções como fumos de vulcões eruptivos e corrosivos de ódio e raivas ferventes.....cada vez mais perto....
Havia caçada e ele era a lebre a abater.....

Annyah sorria-lhe formosa nos seus anos quinze. A escola ficava do outro lado do caminho mesmo por de trás dela e era como formigueiro de vultos parados ou movendo-se.
Os olhos dele estavam aguilhoados à beleza de Annyah, e nada mais viam, pois ela era todo o mundo que sonhara, todo o calor que o incendiava, toda a força para um futuro.
Caminhou apressado os poucos metros que os separavam abraçando-a em palavras meigas e beijando-a como beija flor sugando o seu néctar.
De mãos dadas entraram na escola dirigindo-se para um grupo que gargalhava esfusiantemente. Depressa as suas falas se enredaram noutras e a conversa rolou de boca em boca de gargalhada em gargalhada, de sorriso em sorriso, de beijo em beijo, de apalpão em apalpão.
A sineta tocou mesmo a tempo, estridente e alta e o movimento foi de geral debandada em direcção aos destinos prévios de cada um.
A aula corria lenta e morna e os abrir de boca manifestavam a "seca" a que estavam a ser submetidos.
Ele via-a sentada junto à janela, colorida com as cores de um sol subindo dando-lhe um ar irreal de contraluz. Ela ia sorrindo-lhe com olhos sonhadores e meigos, prometendo....

B U MMMMMMMM

Estavam todos espalhados pelo chão com olhares esgazeados, aterrorizados  e mistos de incredulidade e incompreensão.
Nas mentes uma única palavra fazia sentido....que acontecera!

A forte  explosão abatera-se sobre portas, janelas e paredes destruindo-as e pelo meio do imenso pó volatilizado, pontas de fogo cruzavam mortíferas, cortando definitivamente gritos histéricos ou de agonia. Ele arrastava-se pelo chão com a cara sangrando por inúmeros cortes e roupas desfeitas. Annyah estava caída de lado com o seu longo cabelo negro espalhado e caindo-lhe sobre a cara. Depressa ele chegou até ela desviando amigos sem sopro de vida, corpos moles ceifados numa primavera descorada que chegara cedo de mais.
O troar de armas continuava como música funesta e o cheiro forte de cordite apoderava-se dos sentidos imputando nas mentes um terror impotente.
Eram muitos os poucos que estavam encostados ao imenso muro de betão, borrados até ao tutano e molhados de mijo quente.....
Sete homens encapuçados de armas em riste grasnavam ordens obrigando-os a ajoelharem-se  e disparando contra eles entre risos de alegre loucura e saudações aos seus deuses.
Annyah estava de pé junto dele e as mãos suadas e trementes davam-se num mutuo aperto de solidariedade e força.
Mas a besta insatisfeita, veio de sorriso aberto e podre, com dentes negros pelo consumo de fumos proibidos.
Puxou Annyah com força para ele, arrancando suas mãos das" dele" tentando beijá-la à força, mas a perna dela apanhara aquele ponto  critico do corpo dele e o sorriso perecera naquele hediondo rosto, tornado-se congestionado pelo escalarte da dor  infligida. O outro que o acompanhava puxou da sua faca de dois gumes espetando-a em Annyah antes que "ele " pudesse fazer qualquer coisa....
Caiu, caiu, mergulhando no seu próprio sangue e ali ficou de olhos abertos e parca respiração.
"Ele" saltou desesperado sobre as costas do meliante ao mesmo tempo que agarrava na faca que este deixara cair e lhe cortava o esgar de surpresa desse rosto.

"Ele" jazia ao sol, dependurado como naco de carne num açougueiro, com as mãos amarradas, coberto de sangue da cabeça aos pés. As moscas eram pequenas nuvens barulhentas  que o encobriam por momentos voltando logo de seguida ao seu ritual antropófago.

Horas, dias, semanas  "ele " não sabia, perdera-lhe a conta nos frequentes desmaios. À sua volta apenas areia e sol, ou negrume  e frio.... mas "ele " sabia durante os parcos momentos de lucidez, que as feras estavam por ali esperando o seu momento, limpando armas e facas para um outro qualquer massacre....
Annyah! Que fora feito dela?  Onde estaria o seu corpo esventrado? E o desmaio vinha em seu socorro levando-o para nenhum lado, talvez para um lugar onde nada sentia.

E um dia quando o sol  caia mordendo as dunas demoníacas e escaldantes e as sombras fervilhavam tomando conta da vida, ele sentiu-se caindo, mergulhando numa dor atroz...quanto tempo ali ficara estendido?
Acordou com um gemido na boca negra e gretada, mexeu-se na dor embuçada  e ali ficou de novo sem nada sentir.
Acordou mais tarde no gelo da noite com a Lua cuspindo pedaços de luminosidade por entre nuvens sem água que vogavam como miragem ....levantou-se por entre tonturas cruciantes, dirigindo-se para lá das dunas com as pernas mergulhadas na areia ainda fervente.
As fogueiras em forma de imenso anel  tinham palmas batidas nas sombras e as vozes desafinadas troavam palavras arrastadas.....no solo iluminado pelo fogo, pequenas figuras nuas gesticulavam a dança ora arrastando-se, ora saltando, ora caindo....então a ponta do flagelo caia sem dó estalando no ar antes de arrancar grito e pele,  ferida e sangue, e os risos ecoavam enquanto o vulto tentava erguer-se de novo. Annyah estava entre elas,, vestida com o vermelho do seu sangue, dançando uma dança zombie. Não queria cair de novo, não queria ouvir mais o ar cortado e o flagelo lacerando o que ainda sobrava da sua pele....

A arma estava ali mesmo como que chamando por "ele" arrebanhando-o da dança e lançando-o na realidade da vingança e loucura .
As mãos dele ainda azuladas e sem sangue pegaram na arma .....Gritos confusos e incrédulos saíram das sombras, caíndo no solo como tordos ou sobre as fogueiras como sacrificados ao Deus do fogo, ou como tochas humanas riscando a escuridão em arabescos coloridos......

Depois viu as raparigas e Annyah e rapazes nus correrem para fora do circulo perdendo-se no algures negro da noite.
Sentiu o ar deslocar-se sobre a força das balas que por ele passaram procurando as pontas da sua carne.

Era tempo de fugir também, por isso arrastou-se por metros sem fim, depois agachado tentou correr e correu, correu,correu e o sol veio como sempre airoso indiferente e fervente, massacrando seu corpo sem suor e sedente.


Correu, correu até sufocar e cair exausto no chão seco e duro onde nada nascia.
Nem soubera porque fugira  e muito menos para ali onde não havia lugares onde se abrigar onde se esconder.
A sede gretara seus lábios finos e dormentes e a fome emagrecera até aos ossos, pois era só isso que tinha de seu.
Ao longe podia ver espessas colunas de pós avermelhados que corriam em várias direções como fumos de vulcões eruptivos e corrosivos de ódio e raivas ferventes.....cada vez mais perto....
Havia caçada e ele era a lebre a abater.....

A sombra projectou-se por fim sobre ele como manto protetor contra os raios do sol alto. Não fora o cano azulado apontado à  sua cabeça, e agradeceria aos deuses esta benesse, esta sombra.

"ele" levantou-se a custo. Não morreria como rato no chão arenoso e duro. Isso nunca!
Seus olhos ergueram-se cuspindo todo o seu ódio, desafiando o seu opositor expondo seus ossos ás balas...
Sua prece foi um nome que gritou e ficou por ali preso nos ecos que motivou.
Annyah!
Annyah estava ali de pé, nua e sangrenta de olhar esgazeado de loucura  e tremendo.
A sombra caiu, caiu vagarosamente sem vida nem voz e o pó elevou-se deixando ver na sua nuca avermelhada o cabo de osso de uma faca.

"Ele" segurava  a mão de Annyah
À sua volta o mundo soltara-se e a musica elevava-se
Beijaram-se nesse fim de tarde
A vida corria à sua frente deixando pesadelos passados para trás.



Jorge d'Alte