sábado, 7 de dezembro de 2013





Disseste que me amavas e partistes para sempre ao alvorecer do dia que já não viveste....





Todos os dias luto por ti minha Dulcineia inventada, como cavaleiro quixotediano solitário contra monstros e moinhos de fantasia onde a minha mente forja uma vida que não tivemos.....
Por ti  ergo a minha voz contra Demónios, Deus e Deuses sem misericórdia, que fabricam mortes em cada dia  ao sabor de uma vontade geriatrica, destruidora e diabólica.

De um qualquer ponto do céu, uma voz perfurou o denso nevoeiro que me cegava....a madrugada crescera lenta, tenra e cinzenta e apegavasse-me à pele como sarna  comichenta que não despegava.
A voz soara nas trevas soltas, como farol acolhedor e a branda luz tolheu-me por dentro, porque fora a tua voz que me emudecera e tornara estes olhos cansados e rugosos, humedecidos....
Tanto tempo levo eu nesta cruzada solitária deixando um rasto de bocados de mim, por ali e por acolá deixados assim à toa no esquartejamento diário da alma, que me movo como marioneta ao sabor do destino.... o perigo devia ser grande para Tu me avisares, minha deusa de véus ténues  como ténue foi a tua vida nesta terra mortificada por desventuras e arautos de infortúnios.
Os sentidos despertos, martelavam ao compasso do bater ritmado do coração.....O medo não vivia em mim, pois já tudo perdera nesta vida e o muito que a dor ferrara couraçou-me a alma....por isso aguardei!

A Besta movia-se pegado nas sombras tremelicantes de negrumes,  esticando como borracha as suas garras gélidas e afiadas....Tacteava-me por dentro, talvez tentando encontrar um ponto fraco em que se pudesse agarrar.... no meu rosto bailava um sorriso matreiro que aguardava por fim o tão almejado desfecho  que me levaria por um radiante e luminoso túnel até Ti  meu amor....Tinha ouvido falar tantas vezes em vozes baixas no restolhar quente da lenha brazida, quando a idade ainda era jovem, as matronas engelhadas de coração quente e pés gelados, que quando se partia deste mundo,  esse tal túnel de luz se abria  acolhendo-nos e levando-nos até ao paraíso ou inferno.....vozes amedrontadas por deixarem o mundo que conhecem, e enfrentarem um outro desconhecido....
O gelo ia subindo com a Besta Negra tacteando, tacteando em busca dos pontos fracos para tirar a vida....
A minha mente corria lesta como o vento enquanto o bater afrouxava a cada passo.... via o teu rosto sorrindo-me no alvor do despertar dos sentimentos e a minha gaguez tentando balbuciar a palavra mágica que tanto te queria dizer e que não saía....Não foi preciso, pois os lábios abraçaram-se em cataratas de rios de desejo e então soubemos que o amor era aquilo, aquele mel que embriagava  lúcido, aquele fogo que gelava tudo à nossa volta, mas ardia sereno nos corações....
Engraçado!
Espantado senti que a Besta parara....que o gelo que me invadira se derretia...e o coração voltara para mim batendo cada vez mais depressa....
Abri os olhos esperando ver o tão almejado túnel.... não havia a tal luz....nada....
Da janela lateral o sol entrara sem licença e aguardava no chão batendo e cegando-me com a luminosidade da vida.
Na áurea luz vislumbrei num parco segundo, o véu acenando na brisa quente e suave que me trespassou.....
TU!








Levantei-me do sofá ainda sem perceber bem o que me acontecera.
Agora sabia que quase partira e que TU vieras para me salvar com o grito que cortara as trevas que me engoliam pedaço a pedaço e rechaçara a Besta Negra....e me acordara.



Fechei os olhos por instantes....montei o meu cavalo pintalgado... empunhei de novo como lança a minha voz e chamei~te na lágrima que rolou...e caiu para onde?....E parti de novo na minha demanda até quando?
- Pensei.



Jorge d'Alte