domingo, 15 de agosto de 2010

O aperto suave do teu beijo

Longe vão os tempos de menino e moço.
Tempos onde a incerteza era a certeza do momento e as aventuras sucediam-se nos laivos da loucura e da inconsciência. Era a juventude plena de vontades, de aprender e errar, crescendo e formando-se, ilustrando no rosto de alma sucessivas cores de sentimentos, que pouco a pouco formaram a minha personalidade.

Hoje nos sonhos revejo partes da vida que julgara esquecidas no blôr do tempo intemporal e cruel.

“Passos que nunca mais escutei, soam solitários na penumbra do sonho, caminhando como sempre caminharam, de uma forma decidida e franca trazendo na alvura do sorriso, o calor do ser belo que foras.
Os teus braços trouxeram-me o aperto suave do teu beijo em lábios róseos ou de carmim, ateando um fogo delirado, ganancioso e singelo que absorvia todo o meu sentir, dando-me na troca por excesso o teu calor, o teu desejo, a loucura de quem sente e ama até ao fim.
As tuas mãos níveas apertam as minhas douradas e rudes, descem depois ternurentas em estradas de carinhos, falando ao meu coração com o poder da sugestão, levando-me a sorrir uma vez mais, mesmo quando este bater chora em sulcos rugosos de angústia tristeza e saudade.
Foi mais uma visita que me fizeste desde aquele dia em que balbuciando me disseram que morreras.
Agora o sonho cresce nos campos verdes, nos trigais ondulantes do tempo trazendo-me nas brisas, as tuas gargalhadas francas e roucas, divertidas e loucas, palavras soltas que somavam frases como “ agora não” enganando ao mesmo tempo o desejo, tornando-o real e premente numa troca rápida de beijo.
A lua que sempre nos acompanhou e agora sorri neste sonho descarada risonha e brilhante de expectativa, definhando depois triste quando não conseguiu nada, pois ELA como enguia provocava e fugia, num jogo erótico de tensão sem remissão, lançando-me contra a luxúria numa louca cavalgada qual cruzado correndo nos areais infiéis, lutando contra a emoção do desejo, caindo invencível pela sua amada, neste imenso pântano de sentires que é o amor.
As pálpebras esbracejam lutando para se abrirem, tentando destronar-me deste sonho do qual não quero sair, mas a luz ruim e chata clama por mim e com toda a lata acorda-me por fim, fazendo-me encarar mais uma vez a atroz realidade de que te perdi, não para sempre porque sinto na minha pele e bem cá dentro, que um dia nos uniremos numa áurea etérea de luz celestial e então aí nesse cosmos intemporal, nos amaremos de verdade, porque não morreste para mim, apenas partiste mais cedo, tomando esse comboio desconhecido que te levou no espaço do tempo, mas um dia na estação prevista estarás ali sorrindo para mim trazendo-me o aperto suave do teu beijo em lábios róseos ou de carmim, beijo longo e eterno, sem fim”.


Jorge d’alte