terça-feira, 14 de setembro de 2010

ERA UMA VEZ


Ela sorria perfeita.
Seu nome podia ser perfeição. Traços belos a delineavam num rosto imaculado, num corpo volupto e danado, onde os seus cabelos em cascata encaracolada, davam o toque final.
Tudo nela era angelicamente belo e a sua personalidade, linear e constante.
O amor rodeava-a em mil olhos e atenções, pois tanta beleza era o ponto de encontro com o sexo oposto.
De corpo em corpo, ela vivia a mais velha história desde Adão e Eva. No Liceu a sua cabeça era oca, mas no recreio enchia o espaço como Rosa vermelha no meio do prado, e as cabeças dos rapazes andavam num rodopio, em sorrisinhos provocantes a ver se a sorte lhes sorria. As noites de fim de semana eram loucura com ela, nos bares dançava e arrasava e ninguém podia com ela, os copos erguiam-se ébrios numa vassalagem surda, ela era a vida que pulsava muda.
No seu quarto, fechada, ela chorava amargura, ela era a rainha num reino de fantasia,no reino do faz de conta, da futilidade, mas ao lado do seu trono uma cadeira permanecia sempre vazia.
O seu príncipe não aparecia e por isso chorava. Tinha tudo o que queria do mundo, rapazes, roupas, beleza, dinheiro a rodos, mas nada pagava a ausência do seu príncipe para amar.
Só agora compreendia, que tudo o que fazia a sua vida, afinal não valia nada. Quanto daria por um beijo amado?
As lágrimas responderam-lhe molhadas, caindo na almofada. O amor não pode ser comprado, apenas pode ser amado e aí só o poder do coração manda.
Abriu a janela contemplando a noite bela, as estrelas rodando no céu escuro, em noite de lua nova.
Uma janela se abriu enfrente recortada pela luz de uma lampâda...
Miguel vivia ali, estava apaixonado, mas sabia que tal paixão era apenas um sonho na sua noite, pois o dia trazia-lhe a dura realidade. A miúda que amava era apenas uma fachada, nada tinha de seu, vivia como doidivanas, mas o seu coração amava-a perdidamente. Tudo perdoava, só por um sorriso seu, mas ela passava e não o via e ele definhava nesse amor não correspondido.
Abriu a janela do seu quarto. Ergueu os olhos ao céu, a sua estrelinha estava lá recortada na janela. Acenou com a tristeza de quem se sabe rejeitado, mas desta vez...
Não não pode ser!
Ela acenou também!
Podia imaginar o sorriso que a iluminava.
Viu o gesto num pedido para descer a escada e sem sequer pensar, as suas pernas o levaram degrau a degrau até ao hall da entrada.
Nada! Ninguém lá estava!
Como fora estúpido em pensar que ela o chamara.
Uns passos corridos abraçaram-na com a força do sentimento, enquanto os lábios tremiam temendo a proximidade e como imãs se uniram no fogo da vontade.
Agora ela era rainha no reino do amor, a fantasia ficara para trás, tudo abdicara por ele e agora o seu coração pulsava na felicidade, que invadia o dele.


Jorge d'alte