sexta-feira, 1 de outubro de 2010

EU


Vivia no limbo pequeno e engraçado.
Tinha tudo para crescer ali na orla do prado.
As sombras vetustas dos meus pais e companheiros, que se erguiam acima de mim, frondosos e orgulhosos, protegiam-me dos ventos, que vergavam,vergavam até quebrar.
Pequeno tronco era, despontando parco de ramos e folhas, e um dia quando já definhava fora do imaginário, estendi as minhas raízes, agarrando-me à vida, e a seiva voltou forte e doce e os sentimentos como ramos dourados, estenderam-se às alturas.
As folhas vieram-me vestir, num traje biológico e belo e no despertar das primaveras surgiram as flores, que por serem belas, acasalaram em frutos e a minha semente na terra caída, era esperança de mais uma vida, ali adormecida, à espera da primeira gota que a agitasse e que da terra fértil surgisse, essa filha minha.
Um a um, o machado implacável escolhia a sorte, que derrubaria sem remissão, toda uma vida, feita de sonhos e emoções, apimentada com fantasia.
Agora, eu sou gigante ondulando com a brisa dos tempos, olhando para baixo, vendo meus doces rebentos esticarem as suas raízes, como eu outrora o fizera, crescerem em belos portes, que um dia nas primaveras, hão-de florir.
Sei que o machado virá um dia sem piedade. Que me derrubará com cortes profundos e dolorosos, mas nas pequenas sementes, que a meu lado florescem, está o meu EU e o dos antigos, reinventando novas flores, que um dia por serem belas, darão frutos e sementes, tal como eu e assim a imortalidade é realidade, no pouco que fui, no pouco que sou, no muito que ainda irei ser.


jorge d'alte