terça-feira, 28 de julho de 2026

A VENDA

 



Alguém quis vender o seu mundo
saber quanto valia a sua alma
abduziu o seu peito arrebatado
olhou o alto dos deuses e ofereceu.

Houve anjos indignados do alto até ao fundo
os deuses não ligaram mantendo-se na sua calma
e com ar desfeito, apatetado
alguém ficou estático e esmoreceu.

Havia um murmúrio que rapinava os seus sentidos
colheu-o quando pasmado olhava esses lábios de tantas sedes
havia calor neles, havia sedução, carinhos de afagos nos olhos erguidos
o mundo esboroou-se mas a sua alma ardia no tanto que pedes.


Jorge d'Alte

 



O sol ardia no inferno do dia sobre os costados daqueles que na terra trabalhavam colhendo frutas e legumes.
Maria cantava na meia surdina, por perto rouxinóis pareciam acompanhá-la, mas lá dentro qual estrela, ardia essa nostalgia de alguém que atravessara mares, montanhas,  vicissitudes, um mundo novo para sobreviver.
Dela dependia o bem estar dos seus filhos deixados em braços de bem enquanto ela labutava por uma míngua que dividia.
Na  noite o sonho tomava-a e aí ela brincava na apanha com seus filhos, beijava-os
nas meias sombras, pois não havia luares de amor para cantar, bocas para beijar, braços que a trouxessem de novo á sua terra á sua aldeia algures perdida num emaranhado de quereres, sentires e amores.


Jorge d'Alte

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MEU PORTO

 

Pardacenta e granítica meu Porto
terra de rio, colinas, horizonte e mar
terra de vinho do porto de lindos por de sol
de tripas barcos rabelos chuvas e vento norte.
Cidade Nobre Invicta e Leal que nasceu no torto
de luzes de vielas escadarias e gavetos a contornar
caindo desde a Sé em ladeiras como verde lençol
amando a ribeira e suas pontes de recorte.

Suas avenidas se entremeiam como francesinhas
de monumentos, igrejas e praias
a cor das casas os elétricos a voz deste povo.

O seu castelo de canhões e guaritas fresquinhas
avisam os barcos na pesca com luzes de atalaias
e o rio corre sereno dourado neste Porto velho e novo.


Jorge d'Alte

CRIANÇA ABANDONADA

 


Um bom senhor olhou para mim
sorriu-me e pôs a sua mão na minha cabeça
chamou-me de filho, eu um abandonado
sou um professor e não te obrigo, convido
no cimo da rua existe uma escola que tem um fim
ensinar todas as crianças a aprender; é a esperança
tantos como tu ali estão aprendendo e brincando
vem quando sentires que queres crescer e não te sintas perdido.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


Não sei por onde andei, que caminhos trilhei, que passos suaram na incerteza, só sei que o horizonte corre sempre à nossa frente deixando a sombra incoerente e mordaz calcorreando os passos que não dás querendo ser aquilo que não é, a luz que nos guia até ao poente a luz que esmorece no anoitecer, e aí sim ela seduz mimando-nos com cartelas formulas religiosas que dançam no tempo trazendo as estrelas e a bela lua; dizem que elas dançam aí que são amores que a alma cria ... doidas e voláteis se esfumam e confundem, criaturas que vagueiam num mar de ilusões; porque sorriem as criaturas? Essa é boa! Dizem que a paixão voa por aí como coruja que espreita, depois é só pios, murmúrios corrosivos que encantam ouvidos, e lá estamos nós mergulhando na depressiva tristeza, pois as cantigas são tantas e o coração as rejeita. Uns vão sonhar escondendo a cabeça na travesseira, mas há sempre uma mão lampeira que nos trás o fogo, mas os lábios sempre eles ateiam suores de corpos que se querem dar e aí entra a alvorada, sempre alegre jogando-nos orvalho dando-nos uma flor que murcha na claridade, e quando nos trás o vento e a chuva, e frio que nos traça; frios são os meus passos ao fim destes anos todos de caminhos e encruzilhadas deixando-me sentado na beira da estrada agarrado ás memórias.

Jorge d'Alte

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A MORRINHA

 


Caía, caía a morrinha
na primordial manhãzinha
o céu lavado de estrelas
nuvens e nuvens belas
boiando branquinhas e cinzentas
cinzentos são os caminhos que enfrentas
não tinham  esquinas nem horizontes
olhos olhavam com águas de mil fontes
era o choro gritante que alivia
sentimentos num processo de alquimia.
Caía, caía a morrinha
esbatendo as vontades na tardinha
o céu  cheio de luz pleno de alguém
arco íris enfeitando um sorriso, mas porém
havia escondido no peito a tristeza
não falemos de algo como pureza
falemos dos monstros que vivem na mente
medos escuros que salivam acremente
queimando-nos neurónios  no descalabro
desafiando a resiliência num sonho macabro.
Caía, caía a morrinha
Molhando ossos na imberbe noitinha
prostrados na lama de joelhos rezando
pedindo ao Senhor que nos está sufragando
que guie nas sombras a nossa alma perdida
prenhe de desatinos só porque a morrinha caía, sofrida.


Jorge d'Alte












AS VENDEDEIRAS

 


Ainda o sono dormia
e as geadas choravam
e o sol renascia
quando as mulheres rumavam
carregando os tarecos e as cestas
fosse de elétrico ou a pé.
- "Olha o banquinho prás festas"
- "Minha senhora a cestinha pró canapé?"
Contavam-se histórias do disse e não disse
do Joaquim e da Manela 
"Ai se eu não visse"
" Nem sei o que foi feito dela"
E as moedas caíam nas mãos calejadas
enquanto os passos arrastavam.
fechavam-se as janelas das casas caiadas
ao longe as vendedeiras cantavam.
Olha o banquinho!
Olha a cestinha!
Olha o banquinho!
Olha a cestinha!


Jorge d'Alte

VOANDO NAS MEMÓRIAS

 


Quantas vezes voamos
em memórias floridas
em sonhos de fragância.
O pior é quando acordamos do baloiçar!


Jorge d'Alte

CHAMASTE-ME

 


Chamaste-me
amor vem cá!
Beijaste-me
num doce olá.
Deste-me a mão
num arrastar
levaste-me então
para me amar
A areia fina e dura
era a nossa cama
o olhar era candura
os lábios eram chama.
Cá dentro era confusão
correntes que me levavam
não sei se era a emoção
só sei que me arrancavam
e sentia perfeitamente
o desejo a subir, subir
e então perdidamente
entreguei-me nesse fluir.

jorge d'Alte

NAS PALMAS DA MÃO

 



Nas palmas da mão
o fogo etéreo do teu 
coração
ardeu
iluminou a alma
escreveu a voz
que dentro me acalma
como casca que esconde a noz.
Foi fácil amar
o teu sorriso
de beliscar
sentimento preciso
que me levou ao céu
de estrelas cheio
teu corpo ao léu
a ponta de um seio
o clímax sobreveio
arrepiante
teu húmus cheio
me levou adiante.


Jorge d'Alte

segunda-feira, 13 de julho de 2026

UM DIA ESPECIAL

 


Hoje ia ser um dia especial.
Acabei de me pentear assobiando
pus a colónia já com um pé na porta
desci as escadas a correr
- estava atrasado!
Ia haver uma festa de garagem
onde todos estariam lá e eu também.
Ia preparado para tudo
beber pela primeira vez
fumar o desgostoso cigarro e engatar
tudo novo dentro de um sonho.
Havia a tal rapariga e eu era jovem e bonito
- pena não ter um bigodinho
bem tinha espreitado no espelho, na esperança
mas isso não seria um empecilho.
Provei uma bebida que me pôs a andar á roda
aproveitei a situação e agora rodava com ela
a garina mais linda da escola.
Até aí tudo bem, sempre sorrisos, dentes nevados
não tinha conteúdo a não ser físico
por isso fumei sentado na relva fresca
noctívago das estrelas sem lua.
Foi aí que a confusão aconteceu
ele olhou para mim e foi o fim.
- eu sou rapaz!
Dei-lhe a mão porque abraços havia sempre
quando nos encontrávamos por aí
- ele amava-me! Eu sabia e não reagia magoado
mas hoje era um dia especial, fui seduzido e encantado.
Saí dali com ele e os comentários ficaram lá atrás
as mãos dadas contavam uma outra história 
uma história que não iniciava "era uma vez" 
e os tolos fofocavam porque não compreendiam.
- Ele era apenas afinal o meu melhor amigo.
- eu amava-o!



Jorge d'Alte

CRUA INQUISIÇÃO

 



Algumas vezes por vezes a tentação cai
e os olhos vorazes mordentes plenos de sofreguidão
perdem-se nesse labirinto tortuoso repleto de paixão
e rastejam sentimentos em camas de peles acetinadas
luzidias de suores doces e salgadas
num tempo sem tempo numa onda que veio e que se vai
algumas vezes, por vezes demais.
Os olhos fecham-se dormentes plenos de ilusão
perdem-se nesses sonhos que vivemos como bons
rastejam lágrimas no que perdemos as virgindades impostas
o grande pecado!
Como nos tempos horrorizados da crua inquisição
incitando veemente as gentes a gritarem, a condenarem
levando as tochas á fogueira  na noite negra sem mãe de lua
naquilo que seria apenas o natural da moralidade
dois seres a amarem-se livres vivendo o seu tempo de amor.


Jorge d'Alte

O AMOR É UM SEGREDO

 


O amor é um segredo que os olhos não podem esconder!

Amo o teu olhar, um ninho onde me perco
é como um mar sem ondas, espraiado
é onde encontro o teu desejo de um beijo dar
por isso me dou num delírio irónico
dando e tirando espicaçando a tua paixão, até.
Amo essa boca inferna onde jogo com a tua língua
cada sentimento que enfrento numa fuga para lá de lá
onde arranco a tua alma cheia, plena de luxúria.
Amor é amor!
Derrete-se no abraço
vive nos murmúrios húmidos
nos sonhos que sonhamos.
Amor é um segredo que o coração desenha
pode ser chama que não acalma
Pode ser dia e noite
sol e lua
um par de mãos dadas, seguindo.

Jorge d'Alte

O RELÓGIO DE PÉ

 


O relógio olhando!
A última badalada certa
cai como guilhotina cortando
a respiração aperta.
Dão-dão-dão!
Puxo o lençol até ás orelhas
Dão-dão-dão!
É tempo dos monstros e das velhas.
O medo escava o meu coração
vejo garras espetadas  nas sombras
pergunto-me que horas serão
a minha voz é tão fina sem palavras.
Mas as horas são poucas com meias horas
encolho-me como novelo sem pontas
penso nas coisas boas, talvez amoras
vejo-me a lutar nos campos, coisas tontas
lutar com o velho boneco de trapos que gira
o vento de repente grita e a lágrima sai 
quero apanhá-lo mas ele não se vira.
Dão!
os cabelos estão de pé e o corpo suado
Dão-dão-dão-dão
a minha mente quer fugir, mas aguardo.
A janela!
deixei a janela aberta e bate.
A janela!
É lá que estão os sons, a sombra que se esbate
Os olhos vão-se fechando relaxados
O corpo rijo acalma 
os sons acordam-me lixados
Sento-me  como mola já sem alma.
Arrepio-me todo aflito
que  vai ser de mim?
Tão teso estava que parecia um palito
A porta range sem fim
de olhos esbugalhados de tanto horror
um rosto se abre chamando por mim
Avó! a mente sorri num feliz torpor.



Jorge d'Alte







OS MEUS MEDOS

 


Abri a porta na escuridão
de mansinho para não acordar
tateei medos e aflição
a boca aberta queria gritar
tinha olhos quase cerrados pequeninos
pernas curtas que os pés arrastavam
tudo era indefinido enorme, nos meus ouvidos sinos
e as sombras nos meus suspiros moviam
tudo eram monstros que me pareciam tragar
dentes como facas gigantes me sorriam
o suor caía no meu rosto quase a chorar
não me deixei levar, nas veias os sangues corriam
pela primeira vez decidira no antes do sono que
os medos eram para serem vencidos e desfeitos
talvez porque
não existem e rejeito-os.

Jorge d'Alte

EU SEI

 

Eu sei,
os gogos do caminho
não impedem a água de passar,
a água canta então a sua canção
sons tão bonitos, mas
não têm sentimento, apenas é o que é
som 
restolhando se insurgem nos contratempos
e ruge quando em cataratas cai.
Eu sei,
porque gritei o desespero
as tristezas bulem-nos na alma
o amor fugiu
o rosto alterou-se, mirrou
não sorriu e sofreu,
o que era a dor eu não sabia
ouvira falar
julgava eu nas bocas tontas de tantos.
Então?
Porque me dói o peito assim?
Ah!
Disseram-me que o meu coração
esse que me dói no peito
é que faz de mim um guerreiro
carrega o fardo
lhe dá a coça.
As mágoas soltaram-se
juro que não eram de lágrimas
eram olhos com ciscos
que ardiam em feridas.
Grisalho e sonolento à boca da lareira
cambaleio 
revivo, pois
Eu sei,
muita gente morre de amor
como é isso possível, mas
sinto
são de saudades que morro?
mas que é isso das saudades?
este vazio corroí-me.
Cerro os olhos na minha cara
quero sorrir e não posso
estendo a minha mão apalpando,
negro,
negro por todo o lado como a noite
é na noite que eu te sonho
as memórias amam-me contigo
e eu então,
sei,


Jorge d'Alte













EU SEI

O BARCO FLORIDO

 



Como a alma
engrandecida de sentires
o barco em terra
floresce em sonhos floridos.
Os medos e as aflições
surgem quando o mar pega
e através dos tempos conturbados
o leva para lá do horizonte 
num futuro incógnito.



Jorge d'Alte

FUI-TE VER

 



Fui-te ver á ribeira
o tempo passava por nós
como o vento passa
como as memórias se escapam
como o amor se disfarça.
Eramos jovens mesmo que não se queira
eramos atores na nossa narrativa para vós
eramos olhos que o sonho perpassa
mundos  singelos que se uniam e davam
e corriam em ondas no mundo que avança.

Fui-te ver
e nesse querer
beijamo-nos
e abraçamo-nos.

Jorge d'Alte

O SONHO DE SABERES QUE ÉS MEU

 


O amanhecer irrompeu nos meus olhos
quando mirava as borboletas trapalhonas
um disfarce da minha alma do que gostaria
o que eles desejavam ter era um ror de desejos.
Em bicos de pés tento tocar o teu céu
onde tu és o teu anjo um mágico no amar
por vezes quero ser como tu um doce mel
caindo sem pudor dentro de mim.
Quando os meus ouvidos escutarem os sussurros
circum-navegando a minha cabeça
saberei que o tempo será nosso
mesmo que me perca no teu paraíso
entre beijos abraços e o sonho de saber que és meu.

Jorge d'Alte