quinta-feira, 15 de julho de 2010

Uma história de verdade ou a verdade da história


A manhã estava límpida e fresca.
A brisa soprava dos lados do norte arrepiando-nos a pele trazendo as alvoradas de um outono precoce. As arvores dançavam num abanar ritmado e murmuravam a estranha melodia que trás a melancolia dos dias passados outrora luzidios e simples agora cada vez mais complicados.
Sentada na fluvial praia perdida nos sonhos ela carpia um amor que se escapara por entre os dedos como magia num estalar.
Amavam-se desde pequenos. Segundo se lembrava beijara-o aos seis anos quando entrara para a escola como um selar de algo muito forte que não compreendiam.
Ainda sentia aquela sensação...estranho... como fora tão belo tão desprendido tão cheio de simplicidade tão cheio de inocência. Esse sim fora o beijo de uma vida.
Quantos se seguiram? Cada um mais forte cada um mais profundo até que um dia esse beijo foi desejo e foi bom. Como esquecer esse dia em que fora moça e mulher?
Agora por detrás das lágrimas que teimavam em assomar aos seus doridos olhos ela via-o pela primeira vez como perda e isso rasgava-lhe a alma dilacerando-a com a dor que não se ia.
A pergunta era porquê agora?
Tinham passado juntos 15 anos das suas vidas conheciam-se como ninguém e agora que os sonhos se iam concretizando e as suas vidas eram harmonia tudo fora engolido como brecha aberta por um tremor de terra que abalara e de que maneira o seu dia a dia.
Ele partira um dia sem dizer nada! Para onde não sabia apenas a deixara nessa noite com um simples beijo de despedida e um até amanhã gatinha.
No dia seguinte desaparecera sem nada dizer a ninguém levando consigo o seu encanto o seu sorriso o seu perfume.
Ela sabia que ele a amava que ela era toda a sua vida...então porquê esta atitude?
ELE abrira os olhos desfocados. Rodara-os em volta. Onde estaria!
Aos poucos o torpor fora desaparecendo. Um mundo branco rodeava-o. Não era o céu não! Ouvia o zumbido de maquinaria e via tubos que penetravam na sua carne na sua boca...
Hospital! estou num hospital gritou a sua alma em desespero. Que lhe acontecera! Lembrava-se de ter partido para a cidade a pé levando no pensamento comprar uma prenda para ela.
Ai que seria dela?
Saberia que ele estava ali? E a sua tia onde estava? Ela era toda a sua familia e tratara dele desde que os pais e avós tinha morrido num desastre deixando-o só na vida até que um dia aparecera na instituição que o acolhera uma pessoa dizendo ser sua tia avó que o levara e tratara e lhe dera uma vida envolta em amor.
Não se lembrava de nada do que lhe acontecera e porque estava ali.
A porta abriu-se devagar uma figura de branco interpelou-o perguntando-lhe o nome se sabia quem era e onde morava. Logo a seguir a dar as correctas informações entrara outra pessoa. Era um médico de certeza pois fez-lhe vários testes ao mesmo tempo que lhe dizia " ora meu rapaz está tudo bem contigo agora. Encontraram-te caido sem sentidos na berma da estrada e como não tinhas documentos nem nada e tinhas a cabeça rachada pensamos que foste agredido e roubado". Se tiveres nº de telefone podemos avisar os teus pais para te virem buscar. Ah mas só mais tarde. Passaste aqui dois dias muito maus mas agora o pior já passou e o máximo amanhã já terás alta. Agora vais tomar este comprimido e daqui a pouco estarás a dormir como um santo.
Aos poucos os olhos fecharam-se levando na retina o rosto dela e o seu sorriso adormeceu como por encanto.
Os olhos piscaram e preguiçosos abriram-se devagar.
O rosto com que adormecera ainda ali estava só que agora havia lágrimas que corriam e algo lhe apertava as mãos.
Ai doce visão não te vás... não te escondas nos meus sonhos...Mas o rosto brilhava agora como o sol de verão e o sorriso enchia-o de um encanto tão grande que ele nem pestanejou com medo que tudo se esvaísse como fumo no ar.
Mas não agora eram lábios que tocavam os seus lhe insuflavam novo ar e ânimo lhe traziam a paz... e o seu rosto chorou.
Outra voz pigarreou comovida. O novo rosto surgiu enrugado de tanta vida e a sua velha tia estendeu sua mão rugosa e calejada e com uma simples carícia tocou por dentro a sua alma iluminando-a enchendo-a com uma ternura nunca sentida.
As duas pessoas que mais amavam estavam ali juntas num só sentir "amor" diferentes claro mas cada um mais profundo mais sentido mais acolhedor...

O amor é isto uma história feita ao longo da vida e que nos acompanha até ao último sopro.
Pode ser vivido de muitas formas pode-se degenerar pelas circunstâncias e ser ódio ou paixão mas nunca deixa de ser "AMOR"
É feito de Esperança Fé Saudade Duvida Tristeza Alegria Luta na ponta da nossa Vontade, mas sobretudo é feito do fogo da ALMA.

jorge d'alte (dedicado a todos aqueles que sabem o que é amor e o que é amar)