quinta-feira, 1 de julho de 2010

O primeiro amor


O meu sorriso abriu-se num imenso leque branco.
O seu chamar cristalino abria caminho no silencio da madrugada batendo na minha janela como pancadinhas nervosas de expectativa.
Graça saltava numa tentativa ingénua de lançar mais alto a sua voz agora envolta em impaciência.
Os seus treze anos delgados e altos recortavam-se na penumbra do alvorecer numa forma atraente e bela.Os seus cabelos longos abraçavam o seu rosto caindo desafinados pelos saltos nos seus lindos ombros tisnados.
De cara trigueira e morena de tanto sol olhava-me possessa com seus enormes olhos esverdeados.
-Vê lá se acordas
-Então vamos ou não vamos até ao campo!
-O nascer do sol já despontou e vamos perdê-lo mais uma vez!
Ai minha vida já vou, e lá fui vestindo as calças e correndo escadas abaixo vestindo e apertando a camisa.
Como furacão de quinze anos saí pelo portão dando-lhe a mão ao passar e correndo puxando por ela que gargalhava feliz,descemos a rua entrando na mata que nos conduziria até ao imenso prado onde o gado pastava calmamente.
No recanto aconchegado junto aos brejos e choupos que bordejavam o ribeiro sentamo-nos na enorme lage dependurada sobre a cachoeira endiabrada por onde a água desvairada corria e mergulhava os cinco metros até que em grandes salpicos acalmava e deslizava como cisne prateado por entre a verde relva.
De olhos focados no distante começamos a ver delineado por de trás das colinas e casario a enorme bola de fogo que lançando seus raios indiscriminados ia acordando a vida e num instante iluminou os céus na sua grandiosidade.
Olhei para a minha companheira que apertava forte com a sua mão a minha como se tivesse medo que eu partisse também seguindo outro sol.
Olhou-me com tal meiguice nuns olhos cheios de amor que me emocionou e nesse momento soube que esse erguer do sol trouxera uma nova era ao meu coração.
O amor sincero despontara dentro de mim pela primeira vez.

jorge d'alte 1.07.10